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A CIÊNCIA & DEUS

CIENTISTAS CLONAM EMBRIÕES HUMANOS ?

O tema clonagem humana volta às manchetes de jornais e revistas do mundo depois que pesquisadores da Coréia do Sul disseram ter clonado um embrião humano e extraído dele as tão procuradas células-mãe embrionárias. A experiência, o primeiro registro publicado da clonagem de células-mãe humanas, significa que a chamada terapia de clonagem deixou de ser apenas uma teoria para se transformar em realidade.
Os defensores da clonagem para fins médicos dizem que o procedimento pode revolucionar a medicina, oferecendo tratamento altamente eficiente para doenças como o mal de Parkinson, de coração e diabetes. A técnica poderia permitir, inclusive, a criação de órgãos para serem usados em transplantes. Os pesquisadores acreditam ser esse um avanço rumo ao desenvolvimento de novos métodos para tratar um amplo espectro de doenças degenerativas, como o câncer e o mal de Alzheimer. O professor Woo Suk Hwang e sua equipe criaram embriões que são cópias genéticas exatas das mulheres que doaram óvulos e células para fazê-los. Eles produziram 30 embriões clonados que, durante vários dias, se dividiram e chegaram a um estágio em que células especiais, chamadas células-tronco embrionárias, podem ser extraídas. Os embriões resultantes cresceram para produzir as chamadas células-tronco, que podem se transformar em qualquer tipo de tecido do corpo humano. Os sul-coreanos extraíram células-tronco embrionárias destes embriões, células que podem se dividir e se transformar, virtualmente, em qualquer tecido do corpo humano. A equipe demonstrou o início desta diferenciação e viu a pesquisa progredir ainda mais quando as células foram transplantadas para camundongos.

As experiências da equipe sul-coreana foram aprovadas por uma comissão de ética e todas as mulheres que doaram óvulos e células foram informadas sobre a pesquisa e deram seu consentimento para o uso, mas isso não vai significar nada para aqueles que não aprovam este ramo da ciência. As células-mãe retiradas dos pequenos embriões, conhecidos como blastócitos, têm o potencial de se transformar em qualquer tipo de célula ou tecido do corpo. O diretor da Universidade Nacional de Seul, Woo Suk Hwang, disse em entrevista coletiva, que esta pesquisa abre as portas para o uso de células desse tipo em transplantes. Especialistas elogiaram o trabalho de Hwang e sua equipe. Robert Lanza, diretor das pesquisas de clonagem da Advanced Cell Technology, disse que estamos diante de um marco histórico da medicina. Novamente ciência e religião se chocam de frente e os defensores de cada setor levantam suas bandeiras, uns em defesa e outros contra a clonagem humana.

O governo do presidente norte-americano, George W. Bush, e aliados dele no Congresso dos EUA tentam proibir o procedimento tanto no país quanto internacionalmente. Em 2001, o presidente americano proibiu a utilização de fundos públicos para a pesquisa sobre células criadas a partir de embriões humanos, salvo as células-mãe cultivadas antes do verão de 2001, mas o setor privado não se preocupou com esta proibição. Os Estados Unidos ainda não resolveram a via jurídica para controlar a clonagem humana. Em fevereiro de 2003, a Câmara de Representantes votou um texto que proíbe a clonagem com fins reprodutivos e terapêuticos, mas este texto ainda não foi votado no Senado, devido a fortes divergências. Dois projetos de lei deveriam ser votados na Câmara; um é idêntico ao da Câmara de Representantes e outro propõe autorizar a clonagem com fins terapêuticos e para pesquisa.

A ONU também se posicionou sobre o assunto. O diretor-geral da Organização Mundial da Saúde (OMS), Jong Wook Lee, manifestou sua esperança de que não haja abuso das técnicas da clonagem. Em entrevista coletiva em Madri, Lee considerou cedo para que a OMS se pronuncie de forma oficial sobre as experiências com células-tronco anunciadas no início de fevereiro por cientistas sul-coreanos, mas disse que certamente a intenção dos cientistas "não é a clonagem humana". Em sua opinião, isto seria muito perigoso e eticamente inaceitável e a isso seria preciso acrescentar o perigo de que nascessem seres humanos com defeitos. Ele falou ainda que a OMS estuda as implicações científicas e éticas da clonagem terapêutica. Por outro lado, as empresas farmacêuticas pioneiras no uso de células-tronco no tratamento de doenças incuráveis estão se mobilizando para defender a pesquisa da clonagem, em meio à polêmica causada pelos anúncios da seita Movimento Raeliano, que afirma ter criado dois bebês clonados. A indústria teme que uma reação contra todo tipo de clonagem, reprodutiva e terapêutica, possa colocar em risco a pesquisa de novas técnicas de tratamento para doenças graves, como cardíacas, diabetes e males de Parkinson e de Alzheimer.

O presidente da organização da Indústria de Biotecnologia dos Estados Unidos, Simon Best, disse em entrevista coletiva que não se preocupa com a pressão da opinião pública sobre o assunto, mas que a grande preocupação está nos esforços do Senado Americano de reintroduzir uma legislação que proiba todo e qualquer tipo de clonagem.
As pequisas estão só no começo, por isso, é importante ressaltar que a tecnologia permanece em um estágio muito inicial e as empresas farmacêuticas têm sofrido uma série de problemas. Trevor Jones, presidente da maior companhia de células-tronco da Europa, a ReNeuron, acredita que o primeiro tratamento com essa tecnologia só estará disponível dentro de cinco anos para algum distúrbio raro, como a doença de Huntingdon. Além de provar que a terapia com células-tronco funciona, as empresas também precisam assegurar aos órgãos reguladores, como a FDA (Food and Drug Administration), órgão regulador de alimentos e medicamentos nos Estados Unidos, que podem produzir lotes uniformes e seguros. Células-tronco podem desencadear a mesma rejeição que acontece nos transplantes de rim e de coração, e sua proliferação incontrolável poderia espalhar um câncer. Uma opção é usar essa tecnologia para produzir células-tronco feitas sob medida para o perfil genético de um indivíduo. Mas a tecnologia é cara. Outras possibilidades incluem colher células-tronco de fetos abortados ou mesmo de adultos.

A CLONAGEM SOB O OLHAR DA RELIGIÃO

Em meio as questões éticas, jurídicas e morais que giram em torno da clonagem, há uma que remete à um longínquo embate: aquele que defronta ciência e religião. Certamente os confrontos entre essas duas visões de mundo não são novos, mas encontram uma especificidade ao relacionar-se com formas de reprodução artificial e clonagem, pois colocam em cena a possibilidade de dessacralização da vida pela ciência, em oposição à sacralidade afirmada pelas religiões. Guardadas as devidas diferenças entre três religiões, cristianismo, islamismo e judaísmo, as críticas à clonagem encontram pontos comuns para estas vertentes, como o questionamento das relações de parentesco, que podem abalar o ideal de família, o questionamento da identidade do indivíduo clonado e a possibilidade de aprimoramento genético a partir de um ideal eugênico. Entre as críticas comuns destaca-se a pretensão do homem em comparar-se a Deus.

01)
Clonagem e cristianismo

Segundo o padre Júlio Monari, ex-assessor de Dom Paulo Evaristo Arns e atual professor de História do Cristianismo e Bioética do Instituto Teológico Pio XIX e do Centro Universitário Assunção, a igreja católica defende a existência de vida humana, desde a fecundação, como algo divino. "A vida humana é um dom de Deus, só Ele é Senhor da vida, nesse sentido ela reveste-se de um caráter sagrado. O mandamento bíblico não matarás é indicador desta sacralidade, abrange a vida desde a fecundação até a morte natural. Não é permitido portanto, destruir um embrião para obter células tronco, como tampouco abreviar a vida de um ser humano para extrair órgãos para um transplante, a fim de salvar outra vida", afirma padre Monari. Assim, a clonagem com finalidade terapêutica é rejeitada pelo catolicismo, pois quando se trata de extrair células tronco de um embrião acaba-se infringindo o mandamento "Não matarás". "O embrião já é uma vida, que deve ser respeitada por inteiro", afirma padre Monari.

A Pontifícia Academia Pro Vita do Vaticano já se pronunciou condenando taxativamente qualquer reprodução via clonagem, tanto para finalidades reprodutivas, quanto para finalidades terapêuticas. Entre os problemas apontados, está a possibilidade da aproximação da clonagem com a eugenia, ciência que estuda as condições mais propícias à reprodução e melhoramento genético da espécie humana e que esteve na base de doutrinas como o nazismo. Paralelamente, pontua-se nesses pronunciamentos outros argumentos contrários a clonagem: redução do significado da reprodução humana ao seu aspecto biológico, numa perspectiva que enquadra a lógica da produção industrial; instrumentalização da mulher, a qual passa a estar limitada às suas funções biológicas, a partir do empréstimo dos óvulos e do útero; perversão das relações fundamentais de filiação, parentesco, consangüinidade e progenitura; falta de identidade da pessoa clonada, que passa a ser uma "cópia". A posição dos líderes evangélicos não difere da adotada pela Igreja Católica.

A Igreja Evangélica, tanto nos Estados Unidos quanto no Brasil, é contra o uso de embriões para clonagem de pessoas. Pat Robertson, diretor do 700 Club, tem sido visto como a voz dos evangélicos em relação ao tema clonagem. Ele afirma que a ciência está na busca de produzir uma subclasse humana, com a clonagem de embriões. Pat afirma que a vida vem de Deus e somente Ele pode tirar a vida do homem. Agora, com o avanço da tecnologia, o homem se coloca no lugar de Deus e passa a criar vida, uma alteração completa sobre o conceito estipulado por Deus da concepção da vida. "Isso, sem dúvida, é abominável e detestável a Deus", afirmou.

02) Clonagem e islamismo

O sheik Aly Abdoune, presidente da Assembléia Mundial da Juventude Islâmica da América Latina (WAMY), afirma que o Islã incentiva todo e qualquer avanço científico que venha a beneficiar o homem, mas que a clonagem é totalmente contrária aos princípios islâmicos e à dignidade do indivíduo. Com relação à clonagem humana, sheik Abdoune afirma que a hereditariedade não é respeitada, pois o indivíduo clonado é desprovido de pai e mãe. Assim como a questão do parentesco, outro ponto em comum com a crítica católica, é o dos conflitos de identidade que podem fazer parte da vida de um indivíduo clonado.

"Não se leva em conta as dificuldades que esta criatura terá no futuro, pois é fatal que seja questionada pelos seus pares sobre a forma excêntrica pela qual veio ao mundo. Isto com certeza trará problemas psicológicos e poderá inserir na sociedade pessoas sem o menor senso de família, a base de uma sociedade sadia", afirma o sheik, que ainda questiona a responsabilidade da sociedade para com os frutos das experiências da clonagem, possíveis seres humanos defeituosos, física, moral e mentalmente. O islamismo também condena a clonagem terapêutica. Para o Islã, "o ser humano é merecedor de respeito.

Os seres humanos não são criados por partes e não podem ser alvo de experiências. Toda criatura é obra de Deus, o qual instala almas nos corpos, não por pedaços, mas por inteiro. Não se pode aproveitar determinadas partes de um ser vivo e jogar no lixo outras tantas. Isso é assassinato, é desrespeito com o próximo, é uma violação do direito básico à vida", argumenta sheik Abdoune. Neste aspecto, a religião islâmica aceita e incentiva a doação de órgãos, após a morte do indivíduo, desde que haja permissão do doador e da família e que a doação não ocorra por comércio. Segundo o sheik, a doação de órgãos é mais eficiente do que as experiências de laboratório.

03) Clonagem e judaísmo

O presidente do rabinato da Congregação Israelita Paulista, rabino Henry Sobel, afirma que é plenamente a favor da pesquisa científica, mas categoricamente contra a clonagem de seres humanos. A posição do rabino muda quando se fala em clonagem animal. Apesar de também conter problemas éticos, ela pode ser justificada com base nos benefícios potenciais para a vida humana. A idéia da presunção do homem em tentar se comparar a Deus, também está presente nas críticas e questionamentos feitos pelo rabino. "Sinto enorme apreensão diante desse fenômeno.Quantos embriões e quantos bebês mal formados serão destruídos nesses procedimentos? E para quê? Para satisfazer o ego de algum cientista? E, mesmo que não houvesse, no processo de clonagem humana, o risco de formação de fetos defeituosos, há um quê de arrogância em reduzir o mistério da Criação a uma experiência de laboratório".

A identidade do indivíduo também é apontada como uma forte preocupação para o rabino. "Não posso deixar de me questionar sobre como seria um mundo repleto de clones humanos. Onde ficaria a singularidade de cada indivíduo, a tão fundamental unicidade do ser humano, se essa unicidade fosse negada pela possibilidade de fazer diversos exemplares de uma pessoa", diz o rabino Sobel. Outro ponto crítico apontado pelo rabino com relação à clonagem é o fato de que, estabelecida a técnica para fins terapêuticos, nada garante que ela não seja usada para fins reprodutivos. Ambas podem ser disseminadas dificultando o controle por parte dos governos e abrindo brechas para a proliferação de clínicas clandestinas, tal como existe para o aborto.

A eugenia também está entre os pontos que preocupam o rabino. "Não é absurdo imaginar um banco de células fornecendo matéria-prima para clones de pessoas física ou mentalmente superdotadas. A História já nos deu provas aterradoras do que acontece quando se procura 'aprimorar' a raça humana, a mesma História que nos ensina que a ciência não tem consciência". O rabino diz que, assim como existem cientistas e médicos de elevada moralidade, também há aqueles que se entusiasmam com a pesquisa científica, sem levar em consideração a ética, a finalidade e os meios utilizados. Ele tem dúvidas sobre se a humanidade está realmente preparada para assumir a responsabilidade coletiva de discernir o bem do mal.

Escrito por Laine Furtado
Fonte: Revista Linha Aberta


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