Vida da alma
Elemento essencial do anúncio cristão é a proclamação de que a morte não detém a última palavra
Mas isso só repercute nas consciências por que o ser humano não aceita a perspectiva de seu desaparecimento total e definitivo. Isso quer dizer que entre o testemunho da fé e as aspirações humanas há coincidência.
É algo que ocorre em termos de esperança porque o conteúdo da Promessa ultrapassa infinitamente os mais profundos anseios da humanidade. A celebração da Páscoa carrega esta significação maior.
O Mistério Pascal de Jesus Cristo é memorial do compromisso de Deus de assegurar plenitude à criação.
A pessoa de fé, sem nenhum privilégio, faz a experiência do sofrimento e da morte. Mas ela libertada do desespero por que o Jesus crucificado não ficou em poder da morte e foi recriado pelo poder de Deus, revelando-se como o Cristo da Promessa. A Páscoa do Senhor acontece justamente na passagem da morte para a vida.
"Outrora éreis trevas; agora sois luz no Senhor. Vivei como filhos da luz". (Ef 5,8)
Caminhar em meio às trevas portanto, é atitude do ser humano que tantas vezes padece de grave cegueira como vemos nos dias de hoje com tantos conflitos a começar dentro de casa muitas vezes.
Um dos sinais dessa deformidade é a freqüente confusão entre a realidade e as aparências: "Não consideres a sua aparência nem sua alta estatura. Eu o rejeito. Aqui não se trata daquilo que os homens vêem: os homens vêem aquilo que salta à vista, mas o Senhor vê o coração" (1 Sm 16,7). Bem mais grave que a dificuldade em orientar-se no espaço físico é a cegueira moral que impede a visão dos sinais da presença de Deus.
(Jo 9.1-41)
Muitos hoje procuram salvar sua vidas por caminhos distantes de Deus, e se frustam quando não alcançam seus sonhos. Preocupados com a vida na carne de suas existências deixam a verdadeira vida eterna do paraíso por meros anos de ilusão material e bem estar.
Quando não são como os escribas e fariseus vivem uma situação de extrema gravidade porque, em face da cura do cego de nascença, preferem a observância rigorosa do preceito sabático a louvar a Deus pelas maravilhas operadas por Jesus. O espírito com seu apelo à conversão, é convite a caminhar em direção à luz, sentindo maior da vida humana. (Jo 9,1-4)
Se perguntássemos às pessoas o que mais as atemoriza nos dias de hoje e em sua vida, a resposta lembraria a perspectiva da morte devido a tantas guerrilhas urbanas e atentados suicidas e guerras espalhadas por todo o mundo. Muitas delas vêem na morte a maior de todas as injustiças quais está sujeita a existência humana.
A Palavra da Vida, que Deus profere como mensagem dirigida à humanidade, testemunha com vigor que nada resiste ao seu poder criador e recriador. Acenando, por vezes, a formas simbólicas de morte, outras vezes à sua própria realidade como término do peregrinar na História, Ela nega valor àquilo mesmo que o ser humano considera como seu maior inimigo: "Conhecereis que eu sou o Senhor, quando abrir vossos túmulos, ó meu povo" (Ez 37,13).
Em seus ensinamentos, o apóstolo Paulo proclama a presença de Cristo como a força que vence a morte:
"Se o Cristo está em vós, o vosso corpo, sem dúvida, está destinado à morte por causa do pecado, mas o Espírito é vossa vida por causa da justiça" (Rm 8,10).
O episódio da ressuscitação de Lázaro, por sua vez, depõe em favor da vida, estabelecendo limites ao poder da morte. o caminho em direção a vida eterna inspira confiança de que ninguém e nada, nem mesmo a morte, podem resistir ao poder divino. (Jo 11,1-45)
Que acompanha o caminho triunfal de Jesus ressuscitado apos a morte ressurreição não pode esquecer que este é um momento efêmero de um caminho doloroso.
É sugestiva a utilização da imagem do Servo Sofredor, o inocente que sofre toda espécie de violência
(Is 50, 4-7). Mas é o texto do apóstolo Paulo (Fl 2,6-11) que expõe o sentido maior da Encarnação.
Sem levar em consideração sua condição divina e dela, de certa forma, despojando-se, o Filho assume a forma mais humana da existência humana: a do servo.
Percebem que Jesus andou como nós para mostrar o caminho correto e a forma de alcançar a vida eterna embora com costumes de sua época.
É a situação do ser humano no transformado em objeto. As conseqüência irão manifestar-se no decorrer de seu ministério público e, principalmente, na prisão e na condenação à morte que Ele veio vencer para todos nós.
Qual a inspiração de uma solidariedade tão radical? A humilhação de Deus tem por finalidade assegurar a glorificação do ser humano. O amor só é verdadeiro se for capaz de transpor as barreiras da morte. Essa, aliás, no dizer do próprio Jesus, é sua prova maior. Para quem adere ao projeto de Deus, nem mesmo a violência da sua morte aparente será capaz de sufocar a esperança de que a vida vença a morte
(Mt 26,14-27,66).
O apóstolo Pedro, numa de suas pregações (At 10,34.37-43), percorre cada etapa da trajetória de Jesus. No caminho que vai de Nazaré a Jerusalém, ele anuncia o Reino de Deus, realizando numerosos sinais que testemunham a infinita compaixão divina para com os sofredores, marginalizados, doentes e excluídos.
Há um momento de confronto com o poder constituído porque seus gestos e atitudes contrariam a moral de aparências e o espírito hipócrita. O resultado é a sentença de morte, que determina seu fracasso e a vitória de seus inimigos. Seria o fim trágico de uma grande esperança, semeada no coração de tanta gente. Mas a Igreja existe porque a palavra final foi proferida pelo Deus da vida e do amor eterno, que ressuscitou Jesus dentre os mortos, tornando possível uma nova criação do mundo.
Este é um triunfo surpreendente porque não apresenta a vistosidade dos esplendores mundanos.
O ressuscitado só pode ser reconhecido na fé. E são os pequenos do Reino suas verdadeiras testemunhas. Esta experiência singular é fonte de responsabilidade: "Visto que ressuscitastes com Cristo, procurai o que está no alto, lá onde se encontra Cristo, sentado à direita de Deus" (Cl 3,1).
Não é menosprezo pela terra. É sabedoria de uma justa escala de valores: é o bem que os ladrões não levam e as traças não corroem e poderia acrescentar que os assassinos não tiram a "VIDA".
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