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A caminho da vida eterna
 
 
Ressuscitados pelo amor de Deus Esperança

 


A Ressurreição de Jesus, acontecimento e promessa

A Ressurreição de Jesus é fruto da profunda relação de amor entre Jesus e seu Pai. Esse amor não podia ser quebrado pela morte. Converteu-se em vida nova, em plenitude de existência. Nós, os cristãos, sabemos que quem vive em comunhão com Deus pode desafiar a morte, porque nós já temos a promessa da verdadeira vida.

A Ressurreição de Jesus é a antecipação da nossa.


A mensagem da ressurreição transpassa os limites de nossa realidade imediata. Situa-se além de onde alcançam nosso sentidos e desafia toda a possibilidade de comprovação empírica. Pois bem, a experiência universal atesta que, passado o túnel da morte, já não há caminho de regresso. Quando falamos de regresso, de pessoas que superaram a morte clinica, a realidade é que não haviam chegado ao fim do túnel: trata-se somente de uma morte aparente.

Deste modo, uma vitória definitiva sobre a morte somente pode ser objeto de fé, nunca de evidência. Porém, quando esta fé não é pura abstração, ela mesma se converte em motivo de esperança. Deste modo, a partir da fé podemos vivenciar já a futura ressurreição com alegria profunda e serenamente: "Felizes os que não viram e acreditaram”
(Jn 20,29).

Uma fé como esta, que desafia toda a evidência, não é característica de espíritos conformista, satisfeitos e indolentes. Quem crê na ressurreição não pode resignar-se ante as obscuras forças da natureza, tantas vezes vencedora sobre homem, nem dobrar-se ante as supostas leis do progresso ou do mercado, que encobrem frequentemente as leis dos mais fortes. Solidária com todas as vítimas da história, esta fé tem fome e sede de justiça. Emana da revolução e da utopia, ousa pedir a coisa impossível.

O Deus que faz a coisa impossível

A coisa impossível para o homem pode estar ao alcance de Deus, chamado onipotente. Na realidade concreta não é sempre deste modo, porque o poder de Deus tem seu próprio limite, traçado por seu amor e por nossa liberdade. Mas, neste caso, podemos confiar no poder ressuscitador de Deus; mais ainda, nós devemos fazê-lo, com toda a segurança que nos oferece a revelação cristã.

Quando Jesus responde ao saduceos que "Deus não é um Deus de mortos, mas de vivos" (cf. Mc 12,18-27), esta afirmação representa o ponto culminante de um longo processo, no qual foi amadurecendo a fé de seu povo. Para Israel, a esperança na ressurreição foi o resultado de levar até suas últimas conseqüências a fé em Yahvé como Deus da criação e da aliança. Ante a morte dos seus amigos, esse Deus não podia ficar impotente e impassível. E muito menos se fosse um martírio sofrido pelo sua causa, por fidelidade à Lei e à Aliança, como no caso do Macabeos (cf. 2 Mac 7).   

Se realmente o quer, que o salve

Esta frase se aplica também, com maior força possível, ao martírio de Jesus de Nazaré. Ao longo da vida, Jesus mostrou uma confiança ilimitada em Deus, proclamando seu amor misericordioso e providente para todas as criaturas. Ainda que ensinasse a seus discípulos a invocá-lo como Pai e trata-lo com confiança filial, esta atitude alcançou nele uma intensidade sem igual, totalmente característica.  (cf. Mt 6,9; 7,21; 11,25-27...)

Porém, a relação que unia Jesus com o Pai está na censura no momento de sua morte. O grito horrível da cruz "Deus meu, Deus meu! Por que me abandonaste?”, parece dar razão a quem,  em tom de zombaria, o provocava dizendo: “Colocou sua confiança em Deus,  que o salve agora, se é que de verdade quer” (Mt 27,43.46). Para os acusadores de Jesus, o silêncio de Deus era a negação mais firme, não só de seu ensinamento, mais de toda sua vida. Assim ficava demonstrado definitivamente que era um enganador e blasfemo (cf. Mt 26,63-66). Por outro lado, para quem conhece sua verdade e crê em sua inocência, é Deus mesmo que está em causa.

O silêncio, a passividade aparente de Deus ante a morte de Jesus se rompe “ao terceiro dia”. A ressurreição de Jesus dentre os mortos e sua constituição como "Filho de Deus com poder”, vêem confirmar a verdade de sua pretensão e de sua causa. Já não há duvida que Deus verdadeiramente é seu Pai e o quer, está com ele e não com seus executores, embora ostentem a máxima autoridade religiosa e política.

A ressurreição de Jesus subverte a ordem estabelecida e desmente suas falsas aparências. Através de vigorosa oposição, os primeiros testemunhos da Páscoa como a intervenção de Deus censurou aos poderes constituídos, responsáveis pela crucificação de Jesus (cf. Atos 2,22-24). No fundo, é todo o antigo regime de mediações (Sacerdócio, Lei, Templo...) o que, condenando Jesus, tinham assinado sua própria sentença de morte
(cf. Mc 15,38).

A revelação de Deus culmina assim de uma maneira inesperada, embora de modo coerente com suas manifestações anteriores. No Antigo Testamento, Yahvé se havia identificado por sua ação libertadora: “Eu sou o Senhor teu Deus, que te tirei da terra do Egito, da casa da servidão” (Ex 20,2). Porém, seguia atuando o medo da morte, que faz escravos os homens. A partir de agora o Deus libertador adquire um novo apelatido: "o que ressuscitou Jesus dos mortos" (cf. Rom 4,24; 8,11). Vencido o medo da morte, a liberdade mais radical fica possível: a liberdade de si mesmo, que permite dar a vida pelo outro, seguindo o exemplo do Mestre
(Jn 13,14.34).

José M. Hernández / Coração de Maria

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