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Bem Aventurada

UMA ORAÇÃO A MARIA, A BOA MULHER

 Agora, Virgem Maria, Não pretendo me dirigir a ti como àquela mulher gloriosa, reconhecida por todos como Mãe de Deus, bendita e louvada, e chamada ditosa por todas as gerações.
Agora estou me dirigindo apenas a Maria de Nazaré, à aldeã pobre mas honrada, à judia religiosa e piedosa, `a mãe de Jesus (o carpinteiro-rabino), àquela mulher perplexa e desconcertada, que não entendia, mas "aguardava todas essas coisas em seu coração, meditando sobre elas", `a espera de que algum dia as pedras do jogo combinassem e os enigmas se desvendassem.
É a ti que estou invocando agora, Virgem Maria, mãe apreensiva e até assustada diante do rumo que estavam tomando as coisas referentes ao teu filho, diante da fama que o ia circundando, diante do tremendal em que ele estava afundando no seu trato com os sumos sacerdotes, anciãos do povo, escribas e fariseus...
É a ti que recorro hoje, não como à "torre da Davi", à "torre de marfim", à casa de ouro" ou todos esses outros títulos e galanteios com que mais tarde te batizamos; mas apenas como à mãe de Jesus de Nazaré, crivada e agitada por rumores e notícias horríveis na última fase da sua vida, naqueles dias que transcorreram entre o Domingo de Ramos e a Sexta-feira Santa; àquela que vivenciou a angustia dos processos e a sentença final, que acompanhou seu filho até o lugar da execução; àquela que se manteve firme, embora "atravessada por uma espada de dor", ao pé da cruz.
Santa Maria, mulher, mãe daquele que era "a vergonha do povo", mãe daquele que passou a ser sinal de contadição; mulher de carne e osso, muitos antes de te elevarem aos altares, muito antes de te vestirem de branco e de azul e de te coroarem com a coroa de estrelas; mulher coroada, sim pelo sofrimento, pela pobreza, pelo trabalho dos pobres, pela humildade das almas genuinamente grande que passam desapercebidas, muito antes de se lembrarem de ti intitular "rainha dos Anjos", "rainha dos patriarcas", "rainha dos profetas", "rainha dos apóstolos","rainha dos martires", muito antes, quando os apóstolos ainda existiam ou eram apenas uns pobres coitados cheios de medo e de ignorância e quando os mártires do teu filho nem haviam iniciado ainda o seu sangrento e glorioso desfile.
Santa Maria: hoje só te quero considerar assim, revestida de humildade, despida de todos os acréscimos posteriores, humilde e bem semelhante a nós, maravilhosa e frágil, filha de Deus, vencedora e magnéifica, apesar de a tua fé ter sido submetida a todas as provações imagináveis, mas comovedoramente alheia a sentimentos de grandeza, exaltando com tua alma e com teu corpo o Senhor e alegrando-te (apesar de todas as ameaças dirigidas a ti e a tua família) somente em Deus, teu salvador, porque ele havia posto os olhos na humanidade da sua serva.
E quero te pedir, então, que me pegues pela mão e vás me ajudando a atravessar esta vida - se for preciso, de sofrimento em sofrimento, de perplexidade em perplexidade, de mistério em mistério, esperando, paciente, pelo dia da manifestação de Deus, isto é, pela ocasião e a hora em, que Deus quiser esclarecer seus planos, mas sem perder jamais a paz, nem a paciência, nem a fé, nem a confiança dos filhos que se prezam de um Pai todo-poderoso e todo amor.
Santa Maria, mulher tão humana, que ia buscar água na fonte de Nazaré, que honrava o seu esposo e o seu lar, que tecia, varria, cozinhava ou fazia tudo o que faziam as mulheres pobres mas honradas de Israel; mulher temente a Deus que o honrava com o amor cotidiano de uma oração bem-feita: intercede por mim, intercede pelas mulheres e pelos homens, intercede pela Igreja e pelo mundo inteiro.
Suplica e intecede por nós, tu, a verdadeiramente boa, a mulher sensata, a "mãe admiravel"; tu, que,embora planasses nas alturas, soubeste amar, sofrer e ser alegre, vivendo sempre com os pés na terra, conquanto que, com a alma e o coração, tocasse os céus.
Amém.

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