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Por que continuar batizado

Recentemente, alguns movimentos da sociedade argentina levantaram uma questão: por que continuar batizado, quando o cristão não pratica sua fé? Chegaram ao absurdo de proporem a essas pessoas que se desliguem da Igreja, através de cartas aos bispos das dioceses em que foram batizadas.
 
Em nome pessoal, pretendiam assim anular o batismo que um dia receberam. A questão não é tão simples assim. Primeiro, porque o ato do batismo é um selo consagratório, uma unção inviolável, cuja durabilidade é para sempre, sem retorno. Queira ou não, o cristão batizado não pode fugir de sua identidade, herança da fé que um dia receberam dos seus pais. Segundo, porque renegar a fé é um direito do livre arbítrio, mas nunca excluirá a marca indelével da consagração cristã, pois a unção do óleo santo penetra não apenas nossos poros, mas principalmente nossa alma. O batizado já não se pertence, mas é propriedade divina.
 
Remete-nos aqui à bela passagem da vocação profética de Jeremias. Menino ainda fora escolhido por Deus para testemunhar sua fé, consagrado “antes que no ventre materno fosse formado” e privilegiado pela afirmativa divina de uma predileção especial, pois “não fostes vós que me escolhestes, mas fui eu que vos escolhi e vos consagrei”, com a clara missão de anunciar ao mundo o Reino de Deus. Esse é o batizado. Essa é sua missão. Agora, assumir ou não esse desafio, aprimorar sua fé ou renegá-la publicamente faz parte da liberdade que temos de escolher nossos próprios caminhos. Isso, porém, não apaga de nossas vidas a missão recebida no batismo.

O batismo concede aos catecúmenos as primeiras prendas do céu. É o primeiro passo de uma vida transcendental que deveríamos aprimorar ao longo da nossa existência, dando-lhe um sentido muito além das limitações terrenas. Ora, certo mestre um dia resolveu presentear dois de seus discípulos, oferecendo-lhes pequena quantia de dinheiro, com o desafio de com ele comprar qualquer coisa que pudesse encher um salão escuro. O primeiro deles comprou logo uma porção de feno e entulhou o salão até o teto. O segundo comprou uma pequena vela e a depositou no centro do salão. Acesa, logo encheu o salão de luz.
 
É isso, mais ou menos, o que fazemos com nossa vida batismal. Muitos – e tristemente grande maioria – enche suas vidas - salões existenciais - de entulhos apenas,
mantendo na escuridão a fé que receberam. Outros, valorizando a simplicidade da fé, com uma simples vela são capazes de iluminar suas vidas. Não à toa, nossos pais e padrinhos nos levaram a pia batismal portando uma vela acesa. “Recebe a luz do mundo”, nos diz a Igreja.
 
Com isso, fica claro que assumir ou não a pertença a uma vida eclesial é o mesmo que ouvir e atender ou fazer ouvidos mocos para uma escolha privilegiada que o batismo nos proporciona. Não há dois batismos, duas oportunidades. Como também não há poder humano capaz de apagar, de nossas existências, tamanha marca d’água, pois esta registra nosso nascimento para as coisas do alto. Basta lembrar que a Igreja Católica celebra o rito da consagração da água batismal na noite da Ressurreição, como a nos avivar a lembrança da plenitude eterna que ela nos oferece. O batismo de Cristo, por exemplo, iniciou-se às margens do Jordão, marcando sua vida de pregações, sua missão, mas só se concretizou em definitivo na cruz do Calvário. Só a morte é capaz de encerrar a tarefa que tal sacramento (juramento sagrado) concede a seus eleitos. Só ela. 
 
Mas venhamos e convenhamos: se você não aceita esse peso sobre sua vida, paciência. Esqueça que um dia você foi objeto de chamamento divino e siga em frente! Quem sabe, mais adiante, uma porta fechada lhe devolva a necessidade de procurar pela chave, abrir o salão de sua vida e nele acender uma pequena vela. Sim, em seu nome.

Fonte: Wagner Pedro Menezes - Assis (SP)

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