O Espírito Santo nos fala com freqüência.
A ação tão palpável do Espírito Santo e a freqüência de sua voz aos apóstolos e aos membros da Igreja chama sempre a atenção, quando alguém lê os Atos dos Apóstolos.
Tomemos apenas alguns casos em torno de Paulo: "Agora constrangido pelo Espírito vou a Jerusalém, ignorando a sorte que ali me espera.
Só sei que, de cidade em cidade, o Espírito Santo me assegura que me esperam em Jerusalém cadeias e perseguições" (At 20,22-23).
Isto aconteceu em Efeso. depois, diz Lucas: "Partindo no dia seguinte, chegamos a Cesaréia e, entrando na casa de Filipe, o evangelista, que era um dos sete (diáconos), ficamos com ele.
Tinha quatro filhas virgens que profetizavam.
Já estávamos aí fazia dias, quando chegou da Judéia um profeta, chamado Ágabo Veio ter conosco, tomou o cinto de Paulo e, amarrando-se com ele pés e mãos, disse: "Isto diz o Espírito Santo. Assim os judeus em Jerusalém ligarão o homem a quem pertence este cinto e o entregarão às mãos dos pagãos" ( At 21,8-11).
Os que acompanhavam Paulo trataram de convencê-lo de que não fosse a Jerusalém.
Porém não se deixa influenciar e segue a voz do Espírito que lhe falava dessa maneira (At 2,12-15).
E a palavra do Espírito se cumpre: Paulo é arrastado, levado para o cárcere e submetido a muitos sofrimentos (At 21-28).
Em meio destas perseguições e ameaças de morte, não obstante, o Senhor se apresenta a... Espírito Santo me assegura que me esperam em Jerusalém cadeias e perseguições" (At 20,22-23).
Paulo de novo lhe diz; "Coragem! Deste testemunho de mim em Jerusalém, assim importa também que o dês em Roma" (At 23,11).
O Espírito Santo deixa, pois, ouvir sua voz e se comunica de forma inteligente aos homens.
Abrir-se à voz do Deus vivente
Estes casos narrados nos Atos foram escritos não para satisfazer nossa curiosidade, contanto maravilhosos relatos sucedidos na antiqüidade, mas para que nós creiamos e nos abramos à voz do Deus vivente, que falou ao povo do Velho Testamento e segue falando à sua Igreja, que é um Povo de Profetas.
Muitos exemplos poderíamos trazer também do tempo de Israel.
Recordemos um só: o de Daniel, narrado no capítulo 2 de seu livro.
Daniel, junto com seus três companheiros crentes como ele e com todos os sábios pagãos de Babilônia, é condenado à morte por não terem podido estes últimos responder ao Rei Nabucodonosor que pedia que lhe dissessem o sonho que tinha tido, e qual era seu significado.
Daniel ora as Deus com seus companheiros e lhe pede que lhe revele o mesmo sonho e sua interpretação.
E Deus o diz.
Logo vai ao Rei e lhe"O mistério cuja revelação o rei pede, respondeu Daniel ao rei, nem sábios, nem mágicos, nem os feiticeiros, nem os astrólogos são capazes de revelar-lhos.
Mas no céu existe um Deus que desvenda os mistérios, o qual quis revelar ao rei Nabucodonosor o que deve suceder no decorrer dos tempos.
Eis, portanto, teu sonho e as visões que se apresentaram a teu espírito quando estavas em teu leito.
Senhor os pensamentos que vieram ao teu espírito, enquanto estavas em teu leito, são previsões do futuro: aquele que revela os mistérios mostrou-te o futuro.
Quando a mim se este mistério me foi desvendado, não é que haja mais sabedoria em mim do que nos outros homens, mas para eu dar ao rei a interpretação, a fim de que se faça luz nos pensamentos de teu coração" (Dn 2,27-30).
Esta é uma experiência do Antigo Testamento.
Também a Igreja Católica tem vinte séculos de experiência, ouvindo a voz de Deus e sabe que é necessário aprender a ouvi-la para ser fiel a ela, segui-la e não confundi-la com outras vozes nem distorcê-la.
Não distorcer a voz de Deus
Um formoso exemplo neste último (distorcer a voz de Deus) o encontramos no Evangelho de João 21,20-30:
"Voltando-se, Pedro viu que o seguia aquele discipulo que Jesus amava (aquele que estivera reclinado sobre o seu peito, durante a ceia, ele perguntara: Senhor, quem é que te há de trair?)
Vendo-o, Pedro perguntou a Jesus: Senhor, e este? Que será dele? Respondeu-lhe Jesus: que te importa se eu quero que ele fique até que eu venha? Segue-me tu.
Correu por isso o boato entre os irmãos de que aquele discípulo não morreria.
Mas Jesus não lhe disse: Não morrerá, mas que te importa se quero que ele fique até que eu venha?"
O aprender a ouvir a voz de Deus e estar certo de que é quem nos fala toma muito tempo, longos anos de trato com ele, de certos e, às vezes, de equívocos, outras de correções.
Necessita-se, por isso, muita paciência, muita humildade e orientação das pessoas que já aprenderam e perseverar firmemente nesse cometido.
Por quê? Porque existem muitas vozes à nossa volta: a dos homens, bons e maus; a nossa algumas vezes boa, outras equivocada; a dos demônios, algumas vezes más e outras vezes aparentemente boas, quando se vestem de Anjos de luz.
Educar-se para ouvir a Deus
Para aprender a ouvir a voz de Deus, para conhecer as "pegadas do Senhor" e "a presença do Espírito que fala" é preciso uma boa educação no "discernimento".
Quando uma pessoa se encontrou com o Senhor e já sabe que ele vive e age, começou a ouvir a voz de Deus.
Porém não lhe basta este primeiro encontro maravilhoso para estar certo do que tudo o que ouve em seu interior é voz de Deus.
Pode-se todavia confundir facilmente: existem muitas vezes em seu interior, inclusive vozes de pecado: como é seu orgulho, sua raiva, seu egoísmo, etc.
E preciso, então, seguir "uma educação na fé": instrução, purificação, crescimento no cumprimento dos mandamentos de Deus, obediência aos Mestres da Igreja que muito antes dele ouviram a voz de Deus, submeteram-se a ela e aprenderam a discerni-la de outras vozes.
Se não dão estes passos de "educação na fé" pela Catequese, não se aprende o discernimento.
O crescimento no discernimento, no saber ouvir a voz de Deus, segui-la, não distorcê-la, ser a ela como Paulo e Daniel, supõe, como base, uma boa instrução na fé católica.
Mons. Ramóm de La R. Y Carpio - Revista Alabanza
Orai e vigiai ( Lucas 3-15,16 = Jo 3-5 = Jo 7-37,38 = Jo 14-23,25)